O RDA é o único caminho?

Uma das apresentações do VII Encuentro Internacional e III Nacional de Catalogadores, realizado em Buenos Aires, Argentina, de 23 a 25 de novembro de 2011, foi a de James Weinheimer: “Is RDA the Only Way? An Alternative Option Through International Cooperation” (O RDA é o único caminho? Uma alternativa por meio da cooperação internacional).

Em sua apresentação, Weinheimer aponta alguns questionamentos à utilização do RDA e apresenta de forma breve o projeto Cooperative Cataloging Rules Wiki.

A apresentação tem com pano de fundo a diversidade de recursos disponíveis na Web, a não cobertura (ou a pouca cobertura) desses recursos por parte dos catálogos de bibliotecas e o cenário de crise financeira que compromete, dentre outros, o orçamento das bibliotecas, impactando no quadro de catalogadores e na dificuldade de promover ações visando à implantação do RDA.

Para sumarizar a apresentação de Weinheimer, seguem alguns trechos de seu texto.

“Depois de vários anos em desenvolvimento, o RDA tem sido oferecido como um passo em direção à solução para os catálogos. Mas será que é? O que exatamente ele oferece aos nossos usuários que não seja o que eles têm hoje?

Em síntese:

  • abreviaturas substituídas por extenso
  • algumas mudanças na pontuação
  • designação geral do material (DGM) substituída pelos campos 33x
  • diferentes regras de transcrição
  • abolição da regra de três pela regra de um de acordo com o critério do catalogador
  • poucas mudanças nos títulos uniformes

Como nossos usuários experimentarão essas mudanças? Estou seguro de que a maioria deles não irá nem notar, exceto quando tomarem ciência de algumas inconsistências, por exemplo, algumas palavras por extenso em alguns registros em oposição às abreviaturas em outros. Usuários certamente não notarão as diferenças nas práticas de transcrição. […]”

“O principal ponto mencionado a favor do RDA é que ele está um passo à frente em direção ao FRBR, o qual permitirá que as pessoas encontrem, identifiquem, selecionem e obtenham obras, expressões, manifestações e itens pelos seus autores, títulos e assuntos. É claro que esse objetivo provoca diversas questões. Primeiro, a nova estrutura é necessária para permitir que as pessoas realizem as tarefas do usuário ou temos sistemas modernos que já alcançaram tais tarefas? Vejamos um exemplo. Aqui está uma busca por El Aleph de Jorge Borges no WorldCat. Com a atual capacidade dos catálogos online, todas as variações de diferentes expressões e manifestações podem atualmente ser encontradas e navegadas quando buscadas corretamente. Aqui, o buscador pode limitar por formato, por outros autores, […] por idiomas, datas, anos e assim por diante.”

Busca no WorldCat (http://migre.me/83Uxb).

Mas, além disso, nós podemos proclamar honestamente que as pessoas realmente e verdadeiramente desejam as tarefas do usuário do FRBR, ou seja, que sejam capazes de distinguir todas as expressões, manifestações e itens de uma particular obra? É isso que as pessoas esperam ou elas esperam por algo completamente diferente? Por exemplo, me ocorre perguntar às pessoas que cruzam a porta de uma biblioteca o que elas esperam fazer primordialmente.

Buscar no catálogo?

Ou será que querem trabalhar com os materiais para de fato utilizá-los?

Ou navegar entre as estantes?

Penso que o que as pessoas realmente esperam é trabalhar com os materiais da coleção lendo e navegando entre as estantes (quando isso é possível). A maioria das pessoas não está interessada nos detalhes de um livro – as minúsculas diferenças entre expressões, o que é uma nova expressão vs. uma nova obra, as datas de publicação de específicas manifestações, o número exato de páginas, quem são os publicadores e assim por diante. […]

Ao mesmo tempo, enquanto essas informações são pouco importantes para os nossos usuários, elas são de importância absolutamente vital para aqueles que mantem a coleção, ou seja, os bibliotecários, que devem manter um inventário completo de cada item. No passado, realmente não pôde existir um catálogo para os bibliotecários e outro para os usuários – todos tinham que utilizar a mesma ferramenta. Os computadores têm avançado para o ponto em que essa suposição não mais se sustenta hoje, e a ferramenta para o usuário pode estar organizada e trabalhar muito diferente daquela utilizada pelos gestores da coleção.

Por todas essas razões, eu acredito que o RDA e o FRBR, embora bem intencionados e iniciados por excelentes e sinceros experts em catalogação, estão indo em uma direção muito diferente da necessária aos nossos usuários. De fato, observando essas iniciativas de tal ponto de vista, verifica-se que elas na verdade apenas continuam os mesmos métodos e têm os mesmos objetivos encontrados no começo dos catálogos. Como um resultado, eu não vejo razão para adotar o RDA desde que ele não proverá qualquer coisa substancialmente nova aos nossos usuários. […]”

Ainda sobre a adoção do RDA, Weinheimer comenta:

“[…] se o RDA é adotado pelas principais bibliotecas, as outras bibliotecas têm uma escolha?”

“[As bibliotecas que concluírem que o RDA é uma escolha incorreta] ainda estariam sob pressão para aceitar o RDA, pois temeriam que o AACR2r não fosse mais atualizado e que suas regras se tornariam cada vez mais obsoletas.

Essas são algumas das preocupações em razão das quais decidi iniciar o Cooperative Cataloging Rules Wiki. Uma vez que as vantagens da implantação do RDA não são claras, senti que fosse importante prover às bibliotecas que não quisessem ou não pudessem implantar o RDA uma verdadeira alternativa. Portanto, o que era necessário era algo que garantisse que as atuais regras continuassem a ser atualizadas.

Quero enfatizar que o Cooperative Cataloging Rules Wiki absolutamente não é uma solução definitiva para os problemas dos catálogos e da catalogação. […] Tudo que o Cooperative Cataloging Rules Wiki faz é criar uma maneira de manter as regras em vigor, manter nosso AACR2!”

Weinheimer finaliza com:

“O RDA tem sido empreendido por habilidosos e experientes catalogadores que estão altamente motivados. Infelizmente, sinto que seus esforços têm estado na direção errada.

[O Cooperative Cataloging Rules Wiki] não declara que nenhuma mudança é necessária, mas sim que as mudanças necessárias são mais profundas que as mudanças superficiais sugeridas pelo RDA. […]”.

O texto completo está disponível em inglês e espanhol. Os slides utilizados durante a apresentação estão disponíveis em inglês.

A apresentação de Weinheimer, assim como os textos frequentemente publicados em seu blog, aborda diversos pontos de reflexão. Confesso que achei quase impossível não alterar no mínimo uma pequena parte de minhas opiniões sobre o RDA diante desse texto. E vocês, o que acharam do texto? E do RDA?

Autor: Fabrício Assumpção

Bacharel em Biblioteconomia. Doutorando em Ciência da Informação na UNESP.

2 pensamentos em “O RDA é o único caminho?”

  1. Só li agora seu texto, meses depois da publicação…
    Mas gostaria que você pudesse assinalar quais opiniões sua foram alteradas pelo texto.
    Abraço!

    1. Olá Anônimo, rsrs

      Um problema que vejo, principalmente por causa desse texto do Weinheimer e de outro do mesmo autor (http://blog.jweinheimer.net/2011/08/cataloging-matters-podcast-12.html), é como tratar a questão das quatro entidades (obra, expressão, manifestação e item) junto ao usuário.

      Não basta simplesmente implantar a “estrutura” do FRBR ou, de forma mais palpável, do RDA, sem considerar a percepção dos usuários sobre os relacionamentos entre as quatro entidades e sem ponderar, inclusive, sobre como isso tudo será exibido nos catálogos de forma fácil ao usuário.

      Outro ponto interessante no texto é sobre a possibilidade de conseguirmos algumas das características que o FRBR proveria aos catálogos sem precisarmos mudar para o RDA, como é o exemplo do WorldCat com aquela barrinha lateral com os tipos de suporte (não que o FRBR possa ser reduzido a uma barra lateral). Mas o autor não aprofunda essa discussão.

      Um ponto que discordo do autor é a forma que ele resume as mudanças trazidas pelo RDA: abreviaturas, pontuação, DGM, transcrição, regra de três, etc. No início esses argumentos parecem convencer-nos de que o RDA não significa muitas mudanças, mas depois – passada a euforia do texto – percebemos que o RDA não é só isso!

      Mas, independentemente de concordarmos ou não, uma nova informação sempre muda nosso conhecimento, nossas ideias.

      Abraços,

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