Catalogação de livros em braille

Catalogação de livros em Braille
Fonte: Braille magazines at DC public library 2 (Wikimedia Commons)

Há algumas semanas postei aqui uma proposta de estudo sobre o uso do nome social na catalogação; foi o primeiro post da categoria Entrada secundária, que reúne textos de leitores do blog.

O post de hoje, também publicado na categoria Entrada secundária, é sobre o trabalho A representação do livro em braille em catálogos de bibliotecas, de autoria de Felipe José Lêdo, que defendeu seu TCC no curso de Biblioteconomia da UNIRIO. A seguir, destaco e comento alguns trechos do trabalho.


A representação do livro em braille em catálogos de bibliotecas

Felipe José Lêdo
Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Nas primeiras linhas de seu trabalho, Felipe já esclarece qual é sua preocupação:

Muitas pesquisas vêm sendo realizadas acerca do acesso de deficientes visuais aos prédios de bibliotecas, nas quais problemas relativos às barreiras arquitetônicas são abordados. Assim como as questões referentes ao acesso de deficientes visuais às informações transmitidas em sítios na internet também estão recebendo a atenção de muitos pesquisadores.
Mas, e os problemas relativos ao acesso e à compreensão de deficientes visuais às informações veiculadas em registros bibliográficos de Catálogos em Linha de Acesso Público (OPACs) de bibliotecas? Quanto a essa temática, não há muitas pesquisas. (LÊDO, 2016, p. 15)

Esta pesquisa tem como objetivo geral analisar como ocorre a representação do livro em braille em OPACs de bibliotecas brasileiras, tencionando refletir acerca de tal representação como fator imprescindível para que os usuários deficientes visuais possam acessar e compreender os registros bibliográficos de livros em braille disponíveis em uma biblioteca. (LÊDO, 2016, p. 18)

Quanto à catalogação de livros em braille, essa pode ser uma tarefa complicada para muitos bibliotecários, pois nem todas as edições possuem página de rosto, obrigando o bibliotecário a catalogar utilizando a capa do livro como a fonte principal de informação. (LÊDO, 2016, p. 31)

Após uma revisão da literatura sobre o deficiente visual, o acesso à informação, a catalogação, os catálogos, o AACR2r, o FRBR, a Declaração dos princípios internacionais de catalogação e o documento “Bibliotecas para Cegos na Era da Informação: Diretrizes de Desenvolvimento”, o autor partiu para a análise do catálogo de três bibliotecas: a Biblioteca Nacional, a Biblioteca Pública Municipal Louis Braille e a Biblioteca Louis Braille do Instituto Benjamin Constant.

[…] executou-se uma análise dos OPACs e dos registros bibliográficos relacionando-os às normas e diretrizes […] visando verificar se os OPACs e os registros bibliográficos estavam adequados aos usuários deficientes visuais de forma a facilitar o acesso e a compreensão. Foram analisados os registros bibliográficos disponíveis nos formatos OPAC e MARC 21, sendo desconsiderados quaisquer outros formatos (como a ABNT, entre outros). (LÊDO, 2016, p. 23)

Os resultados da análise foram sintetizados no Quadro 3 (p. 101-102), que você pode conferir neste link ou nas imagens a seguir (clique para ampliar).

(LÊDO, 2016, p. 101)

(LÊDO, 2016, p. 102)

Partindo desses resultados, são apresentadas situações que ilustram alguns dos empecilhos que um deficiente visual encontra ao utilizar o catálogo das bibliotecas estudadas, por exemplo:

Caso um usuário deficiente visual acesse o OPAC da Biblioteca Pública Municipal Louis Braille, encontrará os seguintes entraves: dificuldades para encontrar um livro em braille, pois não existe a opção de pesquisa pelo suporte livro em braille; dificuldades para percorrer o catálogo e recuperar diversos documentos que estejam indexados sob um mesmo termo, já que os termos não são apresentados em formato de links; dificuldades para navegar no OPAC de forma independente devido à ausência de tecnologia adaptativa; dificuldades para ler as informações transmitidas pelo OPAC e pelos registros bibliográficos, uma vez que não está explícita as opções de alto contraste e de aumento de fonte; dificuldades para recuperar livros de ficção que tratem de uma temática, tendo em vista que a indexação levou em conta apenas o meio de expressão e a nacionalidade do autor. (LÊDO, 2016, p. 103)

Considerando esses empecilhos, o autor sugere uma série de recomendações (p. 104) tanto para o desenvolvimento/melhoria dos catálogos quanto para os processos de representação (catalogação e indexação). Vale a pena conferir essas recomendações!

Ao concluir suas considerações, ele destaca que:

não basta saber catalogar, é preciso, também, saber para quem catalogar.” (LÊDO, 2016, p. 107)


Alguns comentários

Uma das características que aprecio muito no trabalho do Felipe é que ele reúne avaliação do catálogo e avaliação da catalogação. Em minha percepção, a avaliação do catálogo é algo realizado com maior frequência do que a avaliação da catalogação (pelo menos é isso que podemos notar pela literatura).

Podemos encontrar avaliações de catálogos no âmbito da arquitetura da informação e da automação de bibliotecas. Sobre essas avaliações, além dos pontos levantados pelo Felipe, destaco um ponto que julgo de grande importância (e muitas vezes negligenciado pelos bibliotecários): os rótulos utilizados para representar as informações bibliográficas.

Você já se perguntou se o seu usuário sabe o que é ent. princ. ou ent. sec.? Entrada? Imprenta? E olha que nem vou entrar na questão dos et al., S. l., s. n., il. color., etc. que a gente vê por aí… Aproveito, assim, para refazer a frase do Felipe: saber catalogar inclui saber para quem catalogar.

Já a avaliação da catalogação, infelizmente, quase nunca é realizada. Essa avaliação deveria abordar questões como a consistência da catalogação, levantada em diversos momentos no trabalho do Felipe (por exemplo, em um mesmo catálogo, alguns registros de livros em braille apresentavam a DGM, enquanto outros não o faziam). Não conheço nenhum trabalho que trate especificamente disso. Se você conhecer algum, deixe seu comentário!

Referência

LÊDO, Felipe José. A representação do livro em braille em catálogos de bibliotecas. 2016. 114 f. Monografia (Bacharelado em Biblioteconomia) – Centro de Ciências Humanas e Sociais, Escola de Biblioteconomia, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

Nome social como ponto de acesso principal

nome-social-ponto-de-acesso-catalogacao
Imagem: https://youtu.be/Un5pC-HaIU4

Hoje iniciarei uma nova categoria de posts: “Entrada secundária“, na qual pretendo publicar textos que não são de minha autoria, mas de leitores/colaboradores do blog que desejam compartilhar ideias, notícias, etc. ou simplesmente narrar fatos ou situações relacionados à catalogação. Caso deseje ter seu texto publicado aqui, entre em contato.

Como primeiro post dessa categoria, e aproveitando que acabamos de sair junho, mês do orgulho LGBT, teremos um texto introdutório de Fernanda Salgado Biar, aluna da UNIRIO, sobre a proposta de seu trabalho de conclusão de curso.

A seguir, então, apresento o texto e alguns comentários meus sobre o assunto. Boa leitura!


A questão do nome social como ponto de acesso principal na Catalogação

Em 2006 foram publicados os Princípios de Yogyakarta, resultados de uma reunião de especialistas realizada na cidade de Yogyakarta, na Indonésia, e teve como objetivo discutir a legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Esses Princípios foram reproduzidos, no Brasil, pelas recentes resoluções do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT). A Resolução nº 11, de 18 de dezembro de 2014, aponta:

§ 1º. Para efeitos desta Resolução, considera-se, de acordo com os Princípios da Yogyakarta:

I – Orientação sexual como uma referência à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas e

II – Identidade de gênero a profundamente sentida, experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos.

§ 2º. Para efeitos desta Resolução, considera-se nome social aquele pelo qual travestis e transexuais se identificam e são identificadas pela sociedade. (BRASIL, 2014, p. 2).

Nos últimos anos a questão sobre o uso do nome social tem sido discutida pelo viés de várias áreas, principalmente pela comunidade jurídica, uma vez que a modificação do nome na carteira de identidade é um processo longo e custoso que precisa ser feito por meio de ação judicial. Durante o andamento do processo são exigidas opiniões de advogados especialistas e de um laudo emitido por psicólogo atestando a transexualidade da pessoa. Mesmo com a demora que pode transcorrer, entende-se que o nome social deve ser um direito para a comunidade LGBT e várias áreas do conhecimento devem estar sensibilizadas em prol desse direito.

O Projeto de Lei nº 5002/2013 sobre o estabelecimento do direito à identidade de gênero da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) está aguardando aprovação e facilitará a mudança do nome no registro civil, atendendo assim, a comunidade LGBT.

Pensando na discussão e uso da questão do nome social na área de Catalogação e, ao realizar uma simples pesquisa nas bases de dados Scielo, BRAPCI e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), não foi possível recuperar documentos que abordem o assunto.

Sendo assim, compreende-se que a área de Catalogação deve perceber a importância e necessidade de discutir o nome social como ponto de acesso principal e, nessa direção, minha pesquisa de trabalho de conclusão de curso (TCC), orientada pela professora Brisa Pozzi de Sousa, abordará o assunto. Em breve espero compartilhar os resultados.

Fernanda Salgado Biar
Discente do 9º período do curso de Biblioteconomia da UNIRIO
E-mail: nanda.biar@gmail.com


Para refletir (e agir!)

O texto da Fernanda tem como plano de fundo um assunto muitas vezes deixado de lado: a parcialidade nos instrumentos e nos processos descritivos da catalogação. Nos processos temáticos (catalogação de assunto, indexação, classificação, etc.) essa parcialidade (viés, não neutralidade) é mais visível e, consequentemente, mais discutida.

Nesse aspecto, alguns avanços podem ser notados: em junho deste ano a Biblioteca Nacional atualizou seus registros de autoridade de assunto substituindo, em vários registros, o termo “Homossexualismo” por “Homossexualidade”, termo já utilizado pela Library of Congress. No entanto, encontramos ainda termos como “Lesbianismo”, o que nos mostra que a atividade de manutenção de registros de autoridade deve ser constante.

Muitas bibliotecas têm o hábito de copiar registros da BN para seu catálogo e nunca mais modificá-los, assim, fica aqui uma tarefinha: percorra seus registros de autoridade e corrija, pelo menos, o termo “Homossexualismo”.

Para aqueles que desejam saber mais sobre o tema, listo aqui alguns trabalhos que podem ser de interesse:

Referências

BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 5002, de 20 de fevereiro de 2013: Lei de Identidade de Gênero. Dispõe sobre o direito à identidade de gênero e altera o art. 58 da Lei nº 6.015 de 31 de dezembro de 1973. Brasília, DF, 2013.

BRASIL. Ministério da Justiça e Cidadania. Resolução nº 11, de 18 de dezembro de 2014. Estabelece os parâmetros para a inclusão dos itens “orientação sexual”, “identidade de gênero” e “nome social” nos boletins de ocorrência emitidos pelas autoridades policiais no Brasil. Brasília, DF, 18 dez. 2014.

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