Nome social como ponto de acesso principal

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Imagem: https://youtu.be/Un5pC-HaIU4

Hoje iniciarei uma nova categoria de posts: “Entrada secundária“, na qual pretendo publicar textos que não são de minha autoria, mas de leitores/colaboradores do blog que desejam compartilhar ideias, notícias, etc. ou simplesmente narrar fatos ou situações relacionados à catalogação. Caso deseje ter seu texto publicado aqui, entre em contato.

Como primeiro post dessa categoria, e aproveitando que acabamos de sair junho, mês do orgulho LGBT, teremos um texto introdutório de Fernanda Salgado Biar, aluna da UNIRIO, sobre a proposta de seu trabalho de conclusão de curso.

A seguir, então, apresento o texto e alguns comentários meus sobre o assunto. Boa leitura!


A questão do nome social como ponto de acesso principal na Catalogação

Em 2006 foram publicados os Princípios de Yogyakarta, resultados de uma reunião de especialistas realizada na cidade de Yogyakarta, na Indonésia, e teve como objetivo discutir a legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Esses Princípios foram reproduzidos, no Brasil, pelas recentes resoluções do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT). A Resolução nº 11, de 18 de dezembro de 2014, aponta:

§ 1º. Para efeitos desta Resolução, considera-se, de acordo com os Princípios da Yogyakarta:

I – Orientação sexual como uma referência à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas e

II – Identidade de gênero a profundamente sentida, experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos.

§ 2º. Para efeitos desta Resolução, considera-se nome social aquele pelo qual travestis e transexuais se identificam e são identificadas pela sociedade. (BRASIL, 2014, p. 2).

Nos últimos anos a questão sobre o uso do nome social tem sido discutida pelo viés de várias áreas, principalmente pela comunidade jurídica, uma vez que a modificação do nome na carteira de identidade é um processo longo e custoso que precisa ser feito por meio de ação judicial. Durante o andamento do processo são exigidas opiniões de advogados especialistas e de um laudo emitido por psicólogo atestando a transexualidade da pessoa. Mesmo com a demora que pode transcorrer, entende-se que o nome social deve ser um direito para a comunidade LGBT e várias áreas do conhecimento devem estar sensibilizadas em prol desse direito.

O Projeto de Lei nº 5002/2013 sobre o estabelecimento do direito à identidade de gênero da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) está aguardando aprovação e facilitará a mudança do nome no registro civil, atendendo assim, a comunidade LGBT.

Pensando na discussão e uso da questão do nome social na área de Catalogação e, ao realizar uma simples pesquisa nas bases de dados Scielo, BRAPCI e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), não foi possível recuperar documentos que abordem o assunto.

Sendo assim, compreende-se que a área de Catalogação deve perceber a importância e necessidade de discutir o nome social como ponto de acesso principal e, nessa direção, minha pesquisa de trabalho de conclusão de curso (TCC), orientada pela professora Brisa Pozzi de Sousa, abordará o assunto. Em breve espero compartilhar os resultados.

Fernanda Salgado Biar
Discente do 9º período do curso de Biblioteconomia da UNIRIO
E-mail: nanda.biar@gmail.com


Para refletir (e agir!)

O texto da Fernanda tem como plano de fundo um assunto muitas vezes deixado de lado: a parcialidade nos instrumentos e nos processos descritivos da catalogação. Nos processos temáticos (catalogação de assunto, indexação, classificação, etc.) essa parcialidade (viés, não neutralidade) é mais visível e, consequentemente, mais discutida.

Nesse aspecto, alguns avanços podem ser notados: em junho deste ano a Biblioteca Nacional atualizou seus registros de autoridade de assunto substituindo, em vários registros, o termo “Homossexualismo” por “Homossexualidade”, termo já utilizado pela Library of Congress. No entanto, encontramos ainda termos como “Lesbianismo”, o que nos mostra que a atividade de manutenção de registros de autoridade deve ser constante.

Muitas bibliotecas têm o hábito de copiar registros da BN para seu catálogo e nunca mais modificá-los, assim, fica aqui uma tarefinha: percorra seus registros de autoridade e corrija, pelo menos, o termo “Homossexualismo”.

Para aqueles que desejam saber mais sobre o tema, listo aqui alguns trabalhos que podem ser de interesse:

Referências

BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 5002, de 20 de fevereiro de 2013: Lei de Identidade de Gênero. Dispõe sobre o direito à identidade de gênero e altera o art. 58 da Lei nº 6.015 de 31 de dezembro de 1973. Brasília, DF, 2013.

BRASIL. Ministério da Justiça e Cidadania. Resolução nº 11, de 18 de dezembro de 2014. Estabelece os parâmetros para a inclusão dos itens “orientação sexual”, “identidade de gênero” e “nome social” nos boletins de ocorrência emitidos pelas autoridades policiais no Brasil. Brasília, DF, 18 dez. 2014.

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Síntese sobre a escolha dos pontos de acesso

Escolha dos pontos de acesso

Uma das dificuldades de quem está aprendendo a utilizar (ou de quem já utiliza) o AACR2r está na escolha dos pontos de acesso, pois a organização e a aplicação das regras do Capítulo 21 nem sempre são claras para todos.

Pensando nesta dificuldade, decidi postar aqui um quadro com uma síntese das principais regras para a escolha dos pontos de acesso principal e secundários, com as indicações destas regras no AACR2r e com os campos em que estes pontos de acesso são registrados no Formato MARC 21 Bibliográfico.

Vale lembrar que a forma dos pontos de acesso é determinada a partir dos demais capítulos da Parte II do AACR2r (capítulos de 22 a 26). O quadro é apenas uma síntese, portanto, consulte o código de catalogação para detalhes e para os casos não contemplados no quadro.

Situação Ponto de acesso principal Ponto de acesso secundário
Até 3 autores (AACR2r 21.6B, 21.6C1) Autor em destaque ou mencionado primeiro (MARC 100) Título (MARC 245); segundo autor (MARC 700); terceiro autor (MARC 700)
Mais de 3 autores (nenhum deles é indicado como o principal responsável) (21.6C2) Título (245) Autor mencionado primeiro (700)
Obra organizada (textos de diferentes autores com título coletivo) com até 3 organizadores (21.7B) Título (245) Organizadores (700); autor mencionado primeiro (se houver mais de 3 autores mencionados na fonte de informação) (700)
Obra organizada (textos de diferentes autores com título coletivo) com mais de 3 organizadores (21.7B) Título (245) Organizador em destaque ou mencionado primeiro (700); autor mencionado primeiro (se houver mais de 3 autores mencionados na fonte de informação) (700)
Obra traduzida com até 3 tradutores (21.30A1, 21.30K1) O mesmo utilizado para a obra original Os mesmos utilizados para a obra original; tradutores, se necessários (700)
Obra traduzida com mais de 3 tradutores (21.30A1, 21.30K1) O mesmo utilizado para a obra original Os mesmos utilizados para a obra original; primeiro tradutor, se necessário (700)
Obras que fazem parte de uma série (21.30L) O mesmo utilizado para a obra Os mesmos utilizados para a obra; título da série (830)
Obras de autoria de entidades coletivas (até 3 entidades coletivas) (21.1B, 21.6C) Entidade em destaque ou mencionada primeiro (110) Título (245); segunda entidade (710); terceira entidade (710)
Obras de autoria de entidades coletivas (mais de 3 entidades coletivas) (21.1B, 21.6C) Título (245) Entidade mencionada primeiro (710)
Anais de eventos (21.1B, 24.3F, 24.7) Nome do evento (número : ano : local) (111) Título dos anais (245)
Obras que não são de autoria de pessoas e nem entidades coletivas (21.1C) Título (245) Outras pessoas ou entidades responsáveis (se forem até 3) (700); primeira pessoa ou entidade responsável (se forem mais de 3) (700 ou 710)

Tradutores

“Faça um ponto de acesso secundário para o tradutor quando (AACR2r 21.30K1):

  • O ponto de acesso principal foi feito para uma entidade coletiva ou para o título, ou
  • O ponto de acesso principal foi feito para uma pessoa e:

a) A tradução for em verso, ou

b) A tradução for importante por si mesma, ou

c) A obra tiver sido traduzida para uma mesma língua mais de uma vez, ou

d) A redação da fonte principal de informação sugerir que o tradutor é o autor, ou

e) Puder ser difícil localizar o recurso por seu ponto de acesso principal”

Obras de entidades coletivas

Sobre as obras emanadas de entidades coletivas, o AACR2r diz:

“21.1B2. Regra geral. Faça a entrada de uma obra emanada de uma ou mais entidades sob o cabeçalho estabelecido para a entidade correspondente (veja 21.4B, 21.5B) se pertencer a uma ou mais das categorias seguintes:

a) obras de natureza administrativa que tratam da própria entidade ou de sua política interna, procedimentos, finanças e/ou operações ou de seus funcionários graduados, pessoal e/ou membros (p.ex., diretórios) ou de seus recursos (p.ex., catálogos, inventários)

b) algumas obras de caráter legal, governamental ou religioso, como as dos seguintes tipos: leis (veja 21.31); decretos do executivo com força de lei (veja 21.31); regulamentos administrativos (veja 21.32); constituições (veja 21.33); regulamentos de tribunais (veja 21.34); tratados, etc. (veja 21.35); decisões de tribunais (veja 21.36); sessões legislativas; leis religiosas (p.ex., direito canônico); obras litúrgicas (veja 21.39)

c) obras que registram o pensamento coletivo da entidade (p.ex., relatórios de comissões, comitês etc.; declarações oficiais sobre questões externas)

d) obras que relatam a atividade coletiva de uma conferência (p.ex., atas, coleções de trabalhos), de uma expedição (p.ex., resultados de explorações, investigações), ou de um evento (p.ex., uma exposição, feira, festival), desde que estejam compreendidas na definição de entidade (21.1B1) e que o nome dessa conferência, expedição ou evento seja mencionado no item que está sendo catalogado

e) as resultantes da atividade coletiva de um grupo executante que atua como conjunto, quando a responsabilidade do grupo vai além da simples interpretação, execução etc. Publicações resultantes de tal atividade incluem gravações de som, filmes cinematográficos, gravações de vídeo e registros escritos de interpretações (Para entidades que funcionam somente como intérpretes de gravações de som, veja 21.23)

f) materiais cartográficos que emanam de uma entidade cuja responsabilidade vai além da mera publicação ou distribuição.
Em caso de dúvida se uma obra corresponde a uma ou mais categorias, trate-a como se não pertencesse a nenhuma.

[…]

21.1B3. Se uma obra emana de uma ou mais entidades e está fora das categorias enumeradas em 21.1B2, trate-a como se não houvesse menção de entidade. Faça entradas secundárias sob os cabeçalhos de entidades mencionadas com destaque de acordo com as instruções de 21.30E.”

Referências

CÓDIGO de catalogação anglo-americano. 2. ed., rev. 2002. São Paulo: FEBAB, 2004.

Crédito da imagem: Card Catalog / by SteveLambert.

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Organizadores: o que o RDA diz sobre eles?

Resource Description and Access (RDA)

Em agosto de 2015 realizei uma videoconferência com a Rede de Bibliotecas da UNESP para conversarmos sobre o RDA. Uma das bibliotecárias participantes perguntou-me algo sobre como o RDA trata os pontos de acesso para obras “organizadas”, ou seja, aquelas obras que são coletâneas de obras de diferentes autores, por exemplo, um livro com capítulos escritos por diferentes autores. Resolvi aproveitar a oportunidade para trazer esse assunto aqui para o blog.

Em síntese, o que o RDA diz é:

  • O “ponto de acesso principal” será o título da obra.
  • Inclua “pontos de acesso secundários” para os organizadores, não importa a quantidade.

A seguir, explico meu ponto de vista sobre o modo com que o RDA lida com essa questão.


Atenção! Se continuar a leitura, não me responsabilizo pelos danos mentais (e catalográficos!), permanentes ou não, aos quais você estará sujeito.

Head over heels / Tears For Fears. - 1985


Vou utilizar como exemplo o seguinte “documento”:

The Conceptual Foundations of Descriptive Cataloging

Este documento, melhor dizendo, esta manifestação é a materialização de uma obra. A obra foi criada, expressa e então materializada.

Quando falamos de autores, tradutores, ilustradores, organizadores, compositores e quaisquer outros papéis que estejam relacionados à criação ou à expressão do conteúdo artístico ou intelectual, estamos falando sobre a obra ou sobre a expressão [1]. Assim vamos direto à Seção 2 do RDA, Registros dos atributos de obra e expressão.

Dentro da Seção 2, consultaremos o Capítulo 6, Identificação de obras e expressões. As instruções do capítulo 6 dizem respeito ao registro dos atributos para a identificação da obra e da expressão. Entre esses atributos, temos: título preferido para a obra (RDA 6.2.2), título variante para a obra (RDA 6.2.3), forma da obra (RDA 6.3), data da obra (RDA 6.4) e outra característica distinta da obra (RDA 6.6).

Ao final do Capítulo 6, temos as regras para a construção do ponto de acesso autorizado representando a obra (RDA 6.27.1). O ponto de acesso autorizado (antigamente chamado de “cabeçalho”) para uma obra é criado a partir da junção de informações sobre a obra, tais como o ponto de acesso autorizado representando o criador da obra e o título preferido para a obra.

Nos casos em que é necessário diferenciar obras com o mesmo título ou com títulos semelhantes, podem ser incluídos no ponto de acesso dados sobre a data, a forma, etc. da obra. De modo geral, o ponto de acesso terá a seguinte estrutura:

Ponto de acesso autorizado representando a obra

Alguns exemplos de pontos de acesso autorizados representando obras (retirados do próprio RDA):

  • Cassatt, Mary, 1844–1926. Children playing on the beach
  • Porter, Douglas R. Making smart growth work
  • James, W. Martin. Historical dictionary of Angola
  • Anthologie de la poésie baroque française
  • The best of Broadway

As regras para construção do ponto de acesso autorizado para a obra estão organizadas em:

Regra Aplicação
6.27.1.2 Obras criadas por uma pessoa, família ou entidade coletiva
6.27.1.3 Obras colaborativas
6.27.1.4 Compilações de obras de diferentes pessoas, famílias ou entidades coletivas
6.27.1.5 Adaptações e revisões
6.27.1.6 Comentários, anotações, conteúdo ilustrativo, etc. adicionado a uma obra já existente
6.27.1.7 Diferentes identidades para um responsável por uma obra
6.27.1.8 Obras de origem incerta ou desconhecida

Em nosso exemplo estamos lidando com uma obra resultante da compilação/organização/edição de obras de diferentes autores, então vamos para 6.27.1.4:

Se a obra é uma compilação de obras de diferentes pessoas, famílias ou entidades coletivas, construa o ponto de acesso autorizado representando a obra utilizando o título preferido para a compilação (veja 6.2.2 RDA). (RDA 6.27.1.4, tradução nossa).

Ou seja, o ponto de acesso autorizado para a obra será apenas o seu título preferido.

O título preferido para a obra é o título ou a forma do título escolhida para identificar a obra. (RDA 6.2.2.1, tradução nossa)

Para obras criadas após 1500, escolha como título preferido o título ou forma do título no idioma original pelo qual a obra é comumente identificada, seja por meio do uso nos recursos que materializam a obra ou por fontes de referência. (RDA 6.2.2.4, tradução nossa)

Registre o título coletivo como o título preferido de uma compilação. (RDA 6.2.2.11.1, tradução nossa)

Percebam que o título preferido (que será usado no ponto de acesso autorizado) é um título escolhido e padronizado. Não necessariamente será o título que consta na página de rosto (o título principal – RDA 2.3.2). Até aqui, já conseguimos registrar as seguintes informações sobre nosso exemplo:

Regra Atributo Dados
2.3.2 Título principal The conceptual foundations of descriptive cataloging
6.27.1 Ponto de acesso autorizado representando a obra: criado a partir do Título preferido para a obra (RDA 6.2.2) e sem o artigo inicial (RDA 6.2.1.7) [2] Conceptual foundations of descriptive cataloging

No exemplo utilizado, o título principal e o ponto de acesso são bastante semelhantes. No entanto, podem ocorrer casos em que a semelhança não seja tão grande, por exemplo, em uma tradução.

Em nosso exemplo, se seguirmos o AACR2r, criaremos a entrada principal para o título principal do documento (aquele título que consta na fonte principal de informação) ou para o título uniforme (o que quase ninguém faz) (AACR2r 21.1C1 “b”).

No MARC 21, seguindo a opção mais frequente do AACR2r (entrada principal para o título principal e não para o título uniforme), o título presente no campo 245 será o ponto de acesso principal [3]:

245 0 4 $a The conceptual foundations of descriptive cataloging

Ao colocarmos no MARC 21 as informações que registramos com o RDA teremos o seguinte:

130 0# $a Conceptual foundations of descriptive cataloging
245 14 $a The conceptual foundations of descriptive cataloging

“Humm Deixe-me ver se entendi direito. Então, com o RDA, teremos mais ‘títulos uniformes’?”

A maravilhosa resposta é: sim e não.

Para entendermos isso melhor, vamos olhar o que preenchemos no MARC 21: o título principal presente no campo 245 refere-se à manifestação; o título “uniforme” do campo 130 refere-se à obra.

O RDA está sendo construído sobre a base teórica do FRBR, que trata o “universo bibliográfico” a partir das entidades obra, expressão, manifestação e item. Se desejarmos utilizar o RDA com a intenção de trazer para nossos catálogos essas entidades e traçar os diversos relacionamentos entre elas, precisamos sim de mais “títulos uniformes” (títulos autorizados representando as obras).

Com o AACR2r e as práticas atuais de catalogação, lidamos hoje principalmente com a catalogação de manifestações – e não de obras [4]. Por isso, no registro AACR2r/MARC 21 acima temos apenas a informação sobre a manifestação e não a informação sobre a obra.

O RDA é extremamente flexível – se comparado ao AACR2r. Ele é tão flexível que podemos utilizá-lo tanto para tentarmos praticar os conceitos do FRBR quanto para continuarmos catalogando tendo como nosso foco a manifestação e não a obra.

Com essa flexibilidade temos o “sim” e o “não”:

  • Sim, teremos mais títulos uniformes na medida em que caminharmos em direção ao FRBR;
  • Não, teremos menos títulos uniformes na medida em que caminharmos em direção ao que fazemos hoje com o AACR2r.

“Então cada um vai fazer de um jeito?”

Sim e não. Caberá às bibliotecas (locais, nacionais, regionais, redes, sistemas, etc.) definir em suas políticas de catalogação qual caminho seguirão.

“E o que faremos com os organizadores? Teremos pontos de acesso secundários para eles?”

No RDA não temos o conceito de entrada secundária (ponto de acesso secundário). Mas isso não significa que não incluiremos pontos de acesso para representar as demais pessoas que estão relacionadas ao documento.

Segundo o RDA, os organizadores estão relacionados à expressão, portanto são registrados como contribuidores (RDA 20.2). O registro dos contribuidores ocorre na Seção 6, Registro dos relacionamentos de pessoas, famílias, entidades coletivas associadas ao recurso, capítulo 20, Pessoas, famílias e entidades coletivas associadas à expressão.

Para indicar esse relacionamento, podemos utilizar o ponto de acesso autorizado para representar o contribuidor. Esse ponto de acesso é construído com as regras da Seção 3, Registro dos atributos de pessoa, família e entidade coletiva, que apresenta regras específicas para os pontos de acesso para pessoas, famílias e entidades coletivas:

Regra Atributo
9.19.1 Ponto de acesso autorizado representando uma pessoa
10.11.1 Ponto de acesso autorizado representando uma família
11.13.1 Ponto de acesso autorizado representando uma entidade coletiva

Designadores de relacionamento

Junto do ponto de acesso podemos utilizar um designador de relacionamento: um termo que explicita o relacionamento. Na Seção 6, os designadores de relacionamento explicitam a função ou o papel da pessoa em relação ao recurso, por exemplo, se é o autor, tradutor, ilustrador, organizar, compositor, diretor, pintor, etc.

Os designadores de relacionamento utilizados na Seção 6 estão disponíveis no Apêndice I, Designadores de relacionamento: relacionamentos entre um recurso e as pessoas, famílias e entidades coletivas associadas a ele.

No apêndice I, os designadores estão agrupados por tipos: designadores para os criadores da obra (autor, arquiteto, compositor, coreógrafo, programador, etc.), designadores para os contribuidores (editor, diretor de arte, ilustrador, cantor, tradutor, etc.), designadores para os manufaturadores, etc.

Para o nosso exemplo, temos o designador “editor”, que é utilizado no RDA no sentido de organizador ou compilador e não no sentido de publicador ou editora.

Chegou a hora de finalizarmos a catalogação. Podemos colocar isso tudo no MARC 21 da seguinte forma:

130 0# $a Conceptual foundations of descriptive cataloging
245 14 $a The conceptual foundations of descriptive cataloging
700 1# $a Svenonius, Elaine $e editor

Pronto! Simples assim! 🙂

Quer saber mais sobre o RDA? Dê uma olhada na Bibliografia Brasileira sobre o RDA e na série RDA em 10 posts! Ainda tem dúvidas sobre as entidades do FRBR? Dê uma olha no post O que é FRBR?

Notas

[1] Se o nosso interesse é saber como registrar as informações que constam no documento (por exemplo, na página de rosto de um livro) devemos consultar a Seção 1, Registro dos atributos de manifestação e item, pois, nesse caso, estaremos lidando com a manifestação ou com o item, e não mais com a obra. [Voltar para o texto]

[2] A regra 6.2.1.7 instrui para que os artigos iniciais sejam incluídos, no entanto, oferece como alternativa a omissão deles. [Voltar para o texto]

[3] Podemos dizer que: o primeiro indicador com “0” e a ausência de um campo 1xx indica que o título é o ponto de acesso principal. [Voltar para o texto]

[4] É óbvio que incluímos também informações sobre a obra, mas ela não é o “centro” do registro bibliográfico atual. [Voltar para o texto]

AACR2r Parte II: Pontos de acesso

Biblioteca de Estudos e Aplicação de Metadados (BEAM)

A Biblioteca de Estudos e Aplicação de Metadados (BEAM) promoveu no último dia 17 de maio a oficina AACR2r Parte II: Pontos de acesso.

A oficina, que contou com a participação de graduandos do curso de Biblioteconomia da UNESP, Campus de Marília, e de bibliotecários da região, abordou o conceito de pontos de acesso, o porquê de sua existência e os capítulos 21 (Escolha dos pontos de acesso), 22 (Pontos de acesso para pessoas) e 24 (Pontos de acesso para entidades) do AACR2r.

Reflexões sobre a indicação de responsabilidade e os pontos de acesso

Pontos de acesso

Uma dúvida frequente das pessoas que estão aprendendo a catalogar é: se já registro o nome dos responsáveis na indicação de responsabilidade, por que preciso registrá-los também na forma de pontos de acesso?

Quando penso nessas questões penso em alguns pontos. Vamos a esses pontos então.

“Qual a função de uma indicação de responsabilidade?

Segundo o glossário do AACR2r (2004, p. D-7), uma indicação de responsabilidade é um “Indicação transcrita do item que está sendo descrito, referente às pessoas responsáveis por seu conteúdo intelectual ou artístico, às entidades das quais emana o conteúdo, ou às pessoas ou entidades responsáveis pela execução do conteúdo do item.”.

Segundo o RDA (2012, 2.4.2.1), “Uma indicação de responsabilidade relacionada ao título principal é um indicação associada ao título principal que traz a identificação e/ou a função de qualquer pessoa, família ou entidade coletiva responsável pela criação do conteúdo intelectual ou artístico do recurso ou que contribua para a realização de tal conteúdo”.

Com base nessas definições, podemos dizer que as funções de uma indicação de responsabilidade são essencialmente duas: (1) indicar as entidades (pessoas, entidades coletivas, famílias) que possuem alguma relação com o conteúdo do recurso e (2) indicar qual é esta relação.

“Por que não incluímos pontos de acesso para todos?”

Em um catálogo em fichas, cada ponto de acesso adicional (secundário) requer uma cópia da ficha principal ou matriz, assim, incluir pontos de acesso para todas as entidades associadas a um recurso é muito oneroso, pois requer recursos humanos e materiais.

“Ok, reproduzir fichas era algo dispendioso, mas em um catálogo digital não precisamos reproduzir os registros, basta adicionarmos mais e mais campos 7xx (700, 710, 711, etc.).”

Infelizmente não é tão simples assim. Tanto em um catálogo em fichas quanto em um digital, adicionar mais e mais pontos de acessos pode parecer simples somente se você e sua instituição não se importam com a consistência do catálogo. Se vocês entendem a necessidade da consistência e se empenham para garantir que ela seja alcançada, sabem que cada ponto de acesso autorizado requer um registro de autoridade ou, ao menos, uma consulta a algumas fontes de informação, o que demanda, também, recursos humanos e materiais.

Como resultado da preocupação com os custos relacionados à criação de fichas secundárias e de registros de autoridade há limitação dos pontos de acesso imposta pelos códigos de catalogação. Um exemplo dessa limitação é a regra 21.30K1 do AACR2r, que estabelece condições para que seja adicionado ao registro bibliográfico um ponto de acesso para o tradutor do recurso informacional.

“Os catálogos digitais atuais podem permitir que qualquer dado de um registro bibliográfico seja um ‘ponto de acesso’.”

No contexto dos catálogos em fichas, devido às limitações espaciais impostas pelo formato da ficha catalográfica, os pontos de acesso (antes chamados de cabeçalhos) eram realmente os únicos meios de se ter acesso a uma descrição (considerando aqui também como pontos de acesso os números de chamada, no caso dos catálogos topográficos, e os números de classificação, no caso dos catálogos sistemáticos).

Hoje, em um catálogo digital, há a possibilidade de chegarmos a uma descrição por meio de qualquer um de seus atributos, não somente por meio dos pontos de acesso estabelecidos pelas regras de catalogação e pela catalogação de assunto. Temos tecnologia suficiente para que eu possa acessar a descrição de um livro por meio de um atributo que indique que ele é uma autobiografia (valor “a” na posição 34 do campo 008 do Formato MARC 21 para Dados Bibliográficos), por meio de seu local de publicação ou de seu resumo.

Os pontos de acesso de assunto incluem dados não encontrados na descrição, assim não podemos nos poupar de sua inclusão em um registro bibliográfico. Já os pontos de acesso de responsabilidade são, em sua maior parte, constituídos por dados presentes na descrição do recurso, mais especificamente no elemento indicação de responsabilidade.

“Por que não abandonamos esses pontos de acesso de responsabilidade? Eles são dispendiosos e a função que desempenham no acesso ao recurso pode ser desempenhada pela indicação de responsabilidade.”

Será que a função dos pontos de acesso é apenas possibilitar o acesso?

Não. Uma de suas funções é possibilitar que o usuário do catálogo faça uma e somente uma busca para acessar todas as descrições associadas à entidade por ele desejada, independentemente do nome ou da forma do nome pelo qual ele conhece a entidade.

Isso ocorre porque o controle dos pontos de acesso reúne em um registro de autoridade todos os nomes e formas do nome utilizados pela entidade, elegendo um ponto de acesso autorizado que será utilizado nos registros bibliográficos sempre que necessário mencionar a entidade em questão. O sistema, analógico ou digital, é construído para guiar o usuário ao ponto de acesso autorizado e, então, aos registros bibliográficos que contêm tal ponto de acesso.

Há, no entanto, outra função dos pontos de acesso controlados que, embora nem sempre percebida claramente, é de extrema importância aos catálogos, principalmente se falarmos em FRBR e catálogos mais “interessantes”.

Antes mascarados pelo termo “cabeçalho” e agora por “ponto de acesso“, esses elementos relacionam de forma implícita ou explícita as descrições dos recursos informacionais cobertos pelo catálogo.

Esses relacionamentos permitem a disposição (reunião, arranjo, etc.) das descrições dos recursos informacionais que compartilham uma mesma característica: obras com um mesmo tema ou criadas por uma mesma pessoa, as expressões de um obra, as manifestações (edições, formatos, etc.) de uma expressão, etc.

Essa disposição das descrições, idealizada já no século XIX na obra de Charles A. Cutter*, é a base para agregarmos valor aos nossos registros e oferecermos ao usuário um catálogo em que ele possa, de modo rápido e fácil, escolher entre aqueles recursos que satisfazem suas necessidades informacionais e aqueles que não.

Convenhamos que a maior parte dos catálogos digitais – principalmente os brasileiros – simulam catálogos em fichas. O principal diferencial de uma parte desses catálogos é o uso de links nos pontos de acesso, o que facilita a navegação do usuário até a disposição das descrições que compartilham um mesmo ponto de acesso.

Deixar de registrar os pontos de acesso só porque os nomes dos responsáveis pelo recurso já estão registrados na indicação de responsabilidade seria privar esses catálogos da pouca vantagem que eles tiram das tecnologias atualmente disponíveis.

“Já que não podemos nos desfazer dos pontos de acesso, o que faremos? Continuamos a registrar duas vezes um mesmo dado?”

Não. O problema não está nos pontos de acesso controlados, mas sim na indicação de responsabilidade. A solução que penso ser a mais adequada é deixar de registrar a indicação de responsabilidade.

“Já que podemos acessar uma descrição por qualquer um de seus atributos, se abolirmos a indicação de responsabilidade, como o usuário terá acesso à descrição por meio de dados que constam somente em tal elemento, por exemplo, o nome de um tradutor para o qual não foi adicionado um ponto de acesso?”

Simples: inclua também pontos de acesso para os tradutores e outros responsáveis, se a política de sua instituição prover essa orientação, claro.

“Se preciso incluir pontos de acesso para todos e, pensando na consistência do catálogo, preciso criar registros de autoridade para cada ponto de acesso autorizado, quanto vai custar uma catalogação?”

Pode não ser necessário criar um registro de autoridade para cada entidade, pois, assim como acontece com os registros bibliográficos, outra instituição pode já ter criado o registro de que você precisa. Temos tecnologias para possibilitar o compartilhamento de dados bibliográficos e de autoridade em escala global, o que falta são pessoas pensando nisso e dispostas a fazer algo.

“E a segunda função da indicação de responsabilidade? Em um ponto de acesso, como indicarei a relação de cada entidade com o conteúdo do recurso?

Provavelmente poucos conhecem e/ou utilizam os subcampos $e “Termo relacionador” e $4 “Código relacionador” dos campos 100, 110, 700, 710, etc. do Formato MARC 21 para Dados Bibliográficos. Esses subcampos destinam-se ao registro dos termos e códigos que indicam a relação entre a entidade representada pelo ponto de acesso e o recurso descrito no registro bibliográfico. Assim, o uso desses subcampos permite que os pontos de acesso cumpram a segunda função da indicação de responsabilidade.

O uso de termos para indicar o relacionamento entre as entidades (obras, expressões, manifestações, itens, pessoas, entidades coletivas, etc.) é algo previsto no RDA, onde esses termos são chamados de designadores de relacionamento (relationship designators). E, diferente do AACR2r que traz poucos designadores (comp., coord., il., trad.), o RDA traz listas e mais listas de designadores.

Resumindo: os pontos de acesso e os designadores de relacionamento podem suprimir a necessidade de registrarmos as indicações de responsabilidade. Assim, para concluir esta reflexão, penso que, do mesmo modo com que “entrada principal” e “entrada secundária” perderam seu sentido no ambiente digital, mais cedo ou mais tarde a indicação de responsabilidade também perderá seu sentido e, principalmente, sua importância em tal ambiente.

* Para saber mais sobre o objetivo de dispor (collocating objective) e sobre outros objetivos dos catálogos definidos por Cutter, recomendo a leitura do trabalho “A importância do controle de autoridade: uma abordagem baseada nos objetivos e nas funções dos catálogos“, apresentado I Encontro Nacional de Catalogadores e no III Encontro de Estudos e Pesquisa em Catalogação.