Questões de concurso #1: RDA

Questões de concurso #1: RDA

Apesar de pouco explorado na prática brasileira e ensinado apenas de forma teórica em algumas escolas de Biblioteconomia do Brasil, o RDA tem figurado entre os temas cobrados em concursos já faz alguns anos.

De modo geral, algumas questões sobre o RDA são bem superficiais, exigindo apenas o conhecimento raso de algumas “siglas”, enquanto outras exigem um conhecimento um pouco mais profundo. Selecionei algumas questões para comentar aqui no blog, iniciando, com elas, uma nova categoria de posts: Questões de concurso.

Antes de seguir para as questões, não se esqueça de se cadastrar para receber os novos posts por e-mail. 😉

A resposta é “RDA”

(UNESP, 2011) A nova norma de catalogação que surge para substituir as AACR denomina-se

(A) RDA.
(B) FRBR.
(C) ISBD.
(D) IFLA.
(E) Dublin Core.

FRBR é um modelo, não uma norma. ISBD é uma norma que existe há muito tempo, então não é nova. IFLA é um órgão, não uma norma. Dublin Core é um padrão de metadados. Sobrou apenas nosso jovenzinho RDA! Resposta: “A”.

(UNESP, 2012) A proposta de revisão do AACR2, de 2005, resultou no projeto de desenvolvimento do

(A) AACR2 revisão 2007.
(B) AACR3.
(C) FBBR.
(D) FRAD/CAD.
(E) RDA.

O RDA surgiu a partir da proposta de revisão do AACR2r. Até 2005, o novo código chamaria AACR3; em 2005 o nome foi alterado para RDA; em 2007 o RDA passou a ter em sua base o modelo FRBR. FBBR está errado, o correto é FRBR, que é um modelo. FRAD também é um modelo. CAD eu não faço ideia do que seja! Resposta: “E”.

(Cepel, 2014) Qual alternativa consiste em um novo padrão de descrição bibliográfica para recurso e acesso desenvolvido para o meio digital, cobrindo todos os tipos de mídias:

(A) AACR
(B) ISBD
(C) DC
(D) RDA
(E) MARC

AACR e ISBD não são novos. Dublin Core (DC) e MARC são padrões/formatos de metadados. Resposta: D. Confira a análise completa desta prova no blog Santa Biblioteconomia.

(IFPE, 2016) A utilização das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) permite a disseminação da produção de informação com maior rapidez e em grande quantidade, dificultando sua organização e recuperação. Objetivando solucionar este problema, foi desenvolvido um código de catalogação que trata de elementos chave para compor os novos modelos em ambiente de informação digital. Este código é o (a)

(A) NBR
(B) AACR2
(C) RDA
(D) MARC 21
(E) USMARC

A sigla NBR, que significa norma brasileira, aparece nas normas da ABNT. AACR2 é um código de catalogação, porém não é novo. MARC 21 e USMARC são formatos para o intercâmbio de dados. MARC 21, inclusive, é o nome adotado para denominar o formato resultante da harmonização dos formatos dos EUA (USMARC) e do Canadá (CAN/MARC) em 1998. Resposta: C.

(Concurso: UFSC, 2014) A tradução CORRETA para RDA é:

(A) Recursos de Acesso.
(B) Redes de Acesso.
(C) Recursos: Descrição e Acesso.
(D) Recursos: Descrição e Acervo.
(E) Redes de Acervo.

Ainda não temos uma tradução brasileira oficial do título do RDA, menos ainda do RDA, mas as alternativas erradas estão muito erradas, então é fácil responder. Resposta: C

RDA: substituto do AACR2

O RDA é um código de catalogação, por mais que essa expressão não conste na “documentação oficial”. O AACR2 também é um código de catalogação. Um código de catalogação só pode ser substituído por outro código de catalogação. Um código de catalogação não pode substituir um formato para o intercâmbio de dados ou um modelo conceitual.

(São Paulo. Secretaria de Estado da Educação, 2013) A RDA (Recursos: Descrição e Acesso) é a nova norma para substituir:

(A) ISO 704 (Norma Internacional de Terminologia).
(B) FRAD (Requisitos Funcionais para Dados de Autoridade).
(C) FRBR (Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos).
(D) AACR2 (Código de Catalogação Anglo-Americano 2).
(E) ISBD (Descrição Bibliográfica Internacional Normalizada).

Resposta: D.

(UTFPR, 2014) O RDA (Resource Description and Access) [Recurso: Descrição e Acesso] foi desenvolvido com o intuito de:

(A) substituir o formato MARC21.
(B) substituir o AACR2.
(C) substituir o MARC21 e o AACR2.
(D) ser usado junto com o MARC21 e o AACR2, mas apenas para a descrição de recursos de acesso eletrônico.
(E) ser usado junto com o MARC21 e o AACR2, para a catalogação de recursos em suporte impresso.

Resposta: B.

Algumas das características do RDA

Essas questões já exigem um pouco mais de conhecimento sobre o RDA:

(UFSC, 2014) Considere as seguintes afirmações sobre RDA:
I) As AACR e a RDA compartilham a mesma estrutura e governança.
II) A RDA foi construída, intencionalmente, sobre os alicerces das AACR.
III) Muitas instruções RDA derivam das AACR2.
IV) A RDA nasceu de uma tentativa inicial de fazer uma revisão radical das AACR.
V) Os dados RDA não poderão ser codificados com a mesma norma MARC 21 usada para registros AACR2.

Estão CORRETAS as afirmações:

(A) apenas I, II, III e V.
(B) apenas I, II, III e IV.
(C) apenas II, III, IV e V.
(D) I, II, III, IV e V.
(E) apenas I, III, IV e V.

As afirmações II, III e IV estão corretas: por ser o substituto do AACR2, o RDA está construído sobre os alicerces de seu antecessor e muitas de suas regras foram criadas a partir das regras do AACR2. A afirmação V está errada, pois o RDA pode sim ser utilizado com os Formatos MARC 21.

A afirmação I pode causar dúvidas: a responsabilidade inicial pelo desenvolvimento do RDA esteve nas mãos dos mesmos responsáveis pelo AACR2, portanto, os dois códigos possuíam a mesma governança. “Estrutura” é uma palavra tão ampla que pode ser utilizada para se referir a muitas coisas do RDA: estrutura administrativa, estrutura das seções, capítulos, elementos, regras, estrutura (modelo) conceitual que serve de base para o RDA, etc. Com isso, a afirmação I está “meio correta”. Mas, mesmo com a dúvida em relação à afirmação I, já é possível chegar a resposta correta (segundo o gabarito): a alternativa B.

(São Paulo. Secretaria de Estado da Educação, 2013) A RDA (Recursos: Descrição e Acesso) propõe um conjunto de diretrizes e instruções sobre a formulação de dados que sirvam de apoio ao descobrimento de recursos por parte do usuário. Cada instrução da RDA reporta-se ao usuário e às tarefas que ele deseja executar, tanto para usar dados bibliográficos quanto para usar dados de autoridade. No que tange às tarefas para o uso de dados bibliográficos, são elas, na ordem em que devem ser realizadas: encontrar,

(A) identificar, contextualizar e justificar.
(B) compreender, identificar e obter.
(C) contextualizar, selecionar e explorar.
(D) selecionar, identificar e explorar.
(E) identificar, selecionar e obter.

Essa é uma questão mais sobre FRBR do que sobre RDA. É importante conhecermos as tarefas dos usuários dos modelos conceituais:

  • FRBR (registros bibliográficos): encontrar, identificar, selecionar, obter (ou adquirir);
  • FRAD (dados/registros de autoridade): encontrar, identificar, contextualizar, justificar;
  • FRSAD (dados/registros de autoridade de assunto): encontrar, identificar, selecionar, explorar.

Resposta: E.

(São Paulo. Secretaria de Estado da Educação, 2013) Os modelos conceituais que fornecem estrutura subjacente e dão forma a RDA (Recursos: Descrição e Acesso) são:

(A) FRBR e FRAD.
(B) FRBR e ISBD.
(C) ISBD-NBM e FRBR.
(D) ISBD e ISBD-NBM.
(E) FRAD e ISBD.

ISBD não é um modelo conceitual, é uma norma para a descrição bibliográfica. FRBR e FRAD são modelos conceituais. Resposta: A.

(UTFPR, 2016) No RDA (Resource Description Access) foram introduzidos três elementos que substituem a Designação Geral de Materiais (DGM), que é registrada no subcampo h do campo 245, de acordo com o Formato MARC 21 para Dados Bibliográficos. Assinale a alternativa que indica quais são estes campos.

(A) 301, 302, 303
(B) 312, 313, 314
(C) 316, 317, 318
(D) 321, 322, 323
(E) 336, 337, 338

A DGM do AACR2 foi substituída, no RDA, por três elementos:

  • tipo de conteúdo (content type): campo 336
  • tipo de mídia (media type): campo 337
  • tipo de suporte (carrier type): campo 338

A criação destes campos no Formato MARC 21 para Dados Bibliográficos é apenas uma das alterações realizadas nos Formatos MARC 21 para a melhor acomodação dos dados registrados com o RDA. Confira todas as alterações nesta página. Resposta: E

(UFMG, 2013) A normalização é um processo essencial na direção do controle bibliográfico universal. Em relação à RDA, as afirmativas abaixo estão corretas, EXCETO.

(A) A RDA introduz novos elementos descritivos, novas abordagens da descrição do suporte e do conteúdo e novas formas para melhorar o acesso.
(B) A RDA aperfeiçoa e tem como base diversas normas para descrição de recursos.
(C) A RDA é um modelo conceitual resultante do estudo realizado por um grupo de estudo da IFLA entre os anos de 1992 e 1997.
(D) Os Princípios de Paris foram fundamentais para a padronização da descrição bibliográfica no âmbito internacional durante a década de 1970.

O RDA não é um modelo conceitual! Os modelos conceituais são: FRBR, FRAD e FRSAD. A revisão do AACR2 começou a ser discutida a partir de 1997, mas os trabalhos de revisão foram iniciados em 2004. O período de 1992 e 1997 refere-se à criação do FRBR. Resposta: C. Confira a análise completa desta prova no blog Santa Biblioteconomia.

Para aprender um pouco mais sobre o RDA, aproveite essa seleção de vídeos do YouTube que tratam deste tema.

RDA: a metamorfose da catalogação

Italian Journal of Library, Archives and Information Science

Rivista italiana di biblioteconomia, archivistica e scienza dell’informazione (JLIS.it) acaba de publicar um número com o tema RDA, Resource Description and Access: The metamorphosis of cataloguing. Esse número temático inclui 15 textos, a maioria em inglês, alguns em italiano e um em francês:

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Perspectivas com o novo código de catalogação

mural-interativo-do-bibliotecario-fabricio-assumpcao

Na último dia 27 de outubro participei do Encontro Marcado, iniciativa do Mural Interativo do Bibliotecário. Nessa edição do Encontro, o tema foi o RDA.

O Encontro aconteceu online por meio da página do Mural no Facebook, onde foi postado um vídeo introdutório sobre o RDA e os participantes puderam postar seus comentários, fazer suas perguntas, etc.

 

Encontro com o RDA

Mural Interativo do Bibliotecário

Amanhã, 27 de outubro, acontecerá o 21º Encontro Marcado, iniciativa do Mural Interativo do Bibliotecário para a discussão de temas de interesse da área. Nessa edição, o tema será Encontro com o RDA: perspectivas com o novo código de catalogação.

A dinâmica do Encontro é bem interessante: será postado um vídeo na página do Mural no Facebook contendo uma explicação introdutória sobre o RDA e, a partir dele, todos poderão comentar (perguntar, responder, sugerir textos, tirar dúvidas sobre o tema, etc.).

O Encontro acontecerá das 19h às 21h (horário de Brasília). Aproveite para curtir a página do Mural Interativo do Bibliotecário para ficar por dentro desta e demais edições do Encontro Marcado!

Encontro com o RDA: perspectivas com o novo código de catalogação

Organizadores: o que o RDA diz sobre eles?

Resource Description and Access (RDA)

Em agosto de 2015 realizei uma videoconferência com a Rede de Bibliotecas da UNESP para conversarmos sobre o RDA. Uma das bibliotecárias participantes perguntou-me algo sobre como o RDA trata os pontos de acesso para obras “organizadas”, ou seja, aquelas obras que são coletâneas de obras de diferentes autores, por exemplo, um livro com capítulos escritos por diferentes autores. Resolvi aproveitar a oportunidade para trazer esse assunto aqui para o blog.

Em síntese, o que o RDA diz é:

  • O “ponto de acesso principal” será o título da obra.
  • Inclua “pontos de acesso secundários” para os organizadores, não importa a quantidade.

A seguir, explico meu ponto de vista sobre o modo com que o RDA lida com essa questão.


Atenção! Se continuar a leitura, não me responsabilizo pelos danos mentais (e catalográficos!), permanentes ou não, aos quais você estará sujeito.

Head over heels / Tears For Fears. - 1985


Vou utilizar como exemplo o seguinte “documento”:

The Conceptual Foundations of Descriptive Cataloging

Este documento, melhor dizendo, esta manifestação é a materialização de uma obra. A obra foi criada, expressa e então materializada.

Quando falamos de autores, tradutores, ilustradores, organizadores, compositores e quaisquer outros papéis que estejam relacionados à criação ou à expressão do conteúdo artístico ou intelectual, estamos falando sobre a obra ou sobre a expressão [1]. Assim vamos direto à Seção 2 do RDA, Registros dos atributos de obra e expressão.

Dentro da Seção 2, consultaremos o Capítulo 6, Identificação de obras e expressões. As instruções do capítulo 6 dizem respeito ao registro dos atributos para a identificação da obra e da expressão. Entre esses atributos, temos: título preferido para a obra (RDA 6.2.2), título variante para a obra (RDA 6.2.3), forma da obra (RDA 6.3), data da obra (RDA 6.4) e outra característica distinta da obra (RDA 6.6).

Ao final do Capítulo 6, temos as regras para a construção do ponto de acesso autorizado representando a obra (RDA 6.27.1). O ponto de acesso autorizado (antigamente chamado de “cabeçalho”) para uma obra é criado a partir da junção de informações sobre a obra, tais como o ponto de acesso autorizado representando o criador da obra e o título preferido para a obra.

Nos casos em que é necessário diferenciar obras com o mesmo título ou com títulos semelhantes, podem ser incluídos no ponto de acesso dados sobre a data, a forma, etc. da obra. De modo geral, o ponto de acesso terá a seguinte estrutura:

Ponto de acesso autorizado representando a obra

Alguns exemplos de pontos de acesso autorizados representando obras (retirados do próprio RDA):

  • Cassatt, Mary, 1844–1926. Children playing on the beach
  • Porter, Douglas R. Making smart growth work
  • James, W. Martin. Historical dictionary of Angola
  • Anthologie de la poésie baroque française
  • The best of Broadway

As regras para construção do ponto de acesso autorizado para a obra estão organizadas em:

Regra Aplicação
6.27.1.2 Obras criadas por uma pessoa, família ou entidade coletiva
6.27.1.3 Obras colaborativas
6.27.1.4 Compilações de obras de diferentes pessoas, famílias ou entidades coletivas
6.27.1.5 Adaptações e revisões
6.27.1.6 Comentários, anotações, conteúdo ilustrativo, etc. adicionado a uma obra já existente
6.27.1.7 Diferentes identidades para um responsável por uma obra
6.27.1.8 Obras de origem incerta ou desconhecida

Em nosso exemplo estamos lidando com uma obra resultante da compilação/organização/edição de obras de diferentes autores, então vamos para 6.27.1.4:

Se a obra é uma compilação de obras de diferentes pessoas, famílias ou entidades coletivas, construa o ponto de acesso autorizado representando a obra utilizando o título preferido para a compilação (veja 6.2.2 RDA). (RDA 6.27.1.4, tradução nossa).

Ou seja, o ponto de acesso autorizado para a obra será apenas o seu título preferido.

O título preferido para a obra é o título ou a forma do título escolhida para identificar a obra. (RDA 6.2.2.1, tradução nossa)

Para obras criadas após 1500, escolha como título preferido o título ou forma do título no idioma original pelo qual a obra é comumente identificada, seja por meio do uso nos recursos que materializam a obra ou por fontes de referência. (RDA 6.2.2.4, tradução nossa)

Registre o título coletivo como o título preferido de uma compilação. (RDA 6.2.2.11.1, tradução nossa)

Percebam que o título preferido (que será usado no ponto de acesso autorizado) é um título escolhido e padronizado. Não necessariamente será o título que consta na página de rosto (o título principal – RDA 2.3.2). Até aqui, já conseguimos registrar as seguintes informações sobre nosso exemplo:

Regra Atributo Dados
2.3.2 Título principal The conceptual foundations of descriptive cataloging
6.27.1 Ponto de acesso autorizado representando a obra: criado a partir do Título preferido para a obra (RDA 6.2.2) e sem o artigo inicial (RDA 6.2.1.7) [2] Conceptual foundations of descriptive cataloging

No exemplo utilizado, o título principal e o ponto de acesso são bastante semelhantes. No entanto, podem ocorrer casos em que a semelhança não seja tão grande, por exemplo, em uma tradução.

Em nosso exemplo, se seguirmos o AACR2r, criaremos a entrada principal para o título principal do documento (aquele título que consta na fonte principal de informação) ou para o título uniforme (o que quase ninguém faz) (AACR2r 21.1C1 “b”).

No MARC 21, seguindo a opção mais frequente do AACR2r (entrada principal para o título principal e não para o título uniforme), o título presente no campo 245 será o ponto de acesso principal [3]:

245 0 4 $a The conceptual foundations of descriptive cataloging

Ao colocarmos no MARC 21 as informações que registramos com o RDA teremos o seguinte:

130 0# $a Conceptual foundations of descriptive cataloging
245 14 $a The conceptual foundations of descriptive cataloging

“Humm Deixe-me ver se entendi direito. Então, com o RDA, teremos mais ‘títulos uniformes’?”

A maravilhosa resposta é: sim e não.

Para entendermos isso melhor, vamos olhar o que preenchemos no MARC 21: o título principal presente no campo 245 refere-se à manifestação; o título “uniforme” do campo 130 refere-se à obra.

O RDA está sendo construído sobre a base teórica do FRBR, que trata o “universo bibliográfico” a partir das entidades obra, expressão, manifestação e item. Se desejarmos utilizar o RDA com a intenção de trazer para nossos catálogos essas entidades e traçar os diversos relacionamentos entre elas, precisamos sim de mais “títulos uniformes” (títulos autorizados representando as obras).

Com o AACR2r e as práticas atuais de catalogação, lidamos hoje principalmente com a catalogação de manifestações – e não de obras [4]. Por isso, no registro AACR2r/MARC 21 acima temos apenas a informação sobre a manifestação e não a informação sobre a obra.

O RDA é extremamente flexível – se comparado ao AACR2r. Ele é tão flexível que podemos utilizá-lo tanto para tentarmos praticar os conceitos do FRBR quanto para continuarmos catalogando tendo como nosso foco a manifestação e não a obra.

Com essa flexibilidade temos o “sim” e o “não”:

  • Sim, teremos mais títulos uniformes na medida em que caminharmos em direção ao FRBR;
  • Não, teremos menos títulos uniformes na medida em que caminharmos em direção ao que fazemos hoje com o AACR2r.

“Então cada um vai fazer de um jeito?”

Sim e não. Caberá às bibliotecas (locais, nacionais, regionais, redes, sistemas, etc.) definir em suas políticas de catalogação qual caminho seguirão.

“E o que faremos com os organizadores? Teremos pontos de acesso secundários para eles?”

No RDA não temos o conceito de entrada secundária (ponto de acesso secundário). Mas isso não significa que não incluiremos pontos de acesso para representar as demais pessoas que estão relacionadas ao documento.

Segundo o RDA, os organizadores estão relacionados à expressão, portanto são registrados como contribuidores (RDA 20.2). O registro dos contribuidores ocorre na Seção 6, Registro dos relacionamentos de pessoas, famílias, entidades coletivas associadas ao recurso, capítulo 20, Pessoas, famílias e entidades coletivas associadas à expressão.

Para indicar esse relacionamento, podemos utilizar o ponto de acesso autorizado para representar o contribuidor. Esse ponto de acesso é construído com as regras da Seção 3, Registro dos atributos de pessoa, família e entidade coletiva, que apresenta regras específicas para os pontos de acesso para pessoas, famílias e entidades coletivas:

Regra Atributo
9.19.1 Ponto de acesso autorizado representando uma pessoa
10.11.1 Ponto de acesso autorizado representando uma família
11.13.1 Ponto de acesso autorizado representando uma entidade coletiva

Designadores de relacionamento

Junto do ponto de acesso podemos utilizar um designador de relacionamento: um termo que explicita o relacionamento. Na Seção 6, os designadores de relacionamento explicitam a função ou o papel da pessoa em relação ao recurso, por exemplo, se é o autor, tradutor, ilustrador, organizar, compositor, diretor, pintor, etc.

Os designadores de relacionamento utilizados na Seção 6 estão disponíveis no Apêndice I, Designadores de relacionamento: relacionamentos entre um recurso e as pessoas, famílias e entidades coletivas associadas a ele.

No apêndice I, os designadores estão agrupados por tipos: designadores para os criadores da obra (autor, arquiteto, compositor, coreógrafo, programador, etc.), designadores para os contribuidores (editor, diretor de arte, ilustrador, cantor, tradutor, etc.), designadores para os manufaturadores, etc.

Para o nosso exemplo, temos o designador “editor”, que é utilizado no RDA no sentido de organizador ou compilador e não no sentido de publicador ou editora.

Chegou a hora de finalizarmos a catalogação. Podemos colocar isso tudo no MARC 21 da seguinte forma:

130 0# $a Conceptual foundations of descriptive cataloging
245 14 $a The conceptual foundations of descriptive cataloging
700 1# $a Svenonius, Elaine $e editor

Pronto! Simples assim! 🙂

Quer saber mais sobre o RDA? Dê uma olhada na Bibliografia Brasileira sobre o RDA e na série RDA em 10 posts! Ainda tem dúvidas sobre as entidades do FRBR? Dê uma olha no post O que é FRBR?

Notas

[1] Se o nosso interesse é saber como registrar as informações que constam no documento (por exemplo, na página de rosto de um livro) devemos consultar a Seção 1, Registro dos atributos de manifestação e item, pois, nesse caso, estaremos lidando com a manifestação ou com o item, e não mais com a obra. [Voltar para o texto]

[2] A regra 6.2.1.7 instrui para que os artigos iniciais sejam incluídos, no entanto, oferece como alternativa a omissão deles. [Voltar para o texto]

[3] Podemos dizer que: o primeiro indicador com “0” e a ausência de um campo 1xx indica que o título é o ponto de acesso principal. [Voltar para o texto]

[4] É óbvio que incluímos também informações sobre a obra, mas ela não é o “centro” do registro bibliográfico atual. [Voltar para o texto]